quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Dia de Malhar Judas - Mensagem de Texto


Pela fresta da janela a vizinha assistia a tudo, não perdia nada. O seu grande faro para os acontecimentos parecia muito apurado, ela pressentia tudo ao seu redor.  Enquanto isso, a garotada se movimentava para anotar todos os escândalos no decorrer daquele ano para não faltar nada no boneco que seria malhado. Todos os anos eram assim, enquanto a vizinha tomava conta da vida dos outros pela fresta da janela, ela era observada também..., pois o seu nome jamais faltaria no boneco de sábado de aleluia.

Enquanto contabilizavam os dados, a molecada queria buscar também informações sobre o que essa tal Dona Carmem sabia, até porque, ela estava muito mais atenta do que eles que tinham horas para dormir. Daí, eles foram só anotando o que chegava até eles, como no caso do Jessé com a Piruna, que se relacionaram as escondidas, o tal do Manoel Chita que casou com a boca de cantor e certo sujeito que se encontrava as escondidas com a vizinha, mulher de um sujeito com apelido de passarinho, ele estava invadindo a sua gaiola quase todas as noites, entre muitas outras anotações difamatórias.

Nesta madrugada de sexta para sábado a vizinhança não dormia, todos temiam que seus erros fossem parar no tal Judas. Eram cartazes reveladores e comprometedores, ao ponto de mexer com a moral até de quem não fez nada de vergonhoso durante o ano. Aqueles que não viviam das frestas de suas janelas, tomavam conhecimento de todas as ocorrências através dos bonecos de Judas ano após ano, uma tradição que se encontra em desuso, devido a tanta confusão que sempre causou por toda circunvizinhaça, alem é claro, por causa da violência atual também.

Uma pena essa brincadeira saudável se tornar tão ofensiva, ao ponto de ter levado as pessoas ao aborrecimento em várias ocasiões, privando as crianças das tradições de outras épocas. 

Um comentário:

Ateliê Tribo de Judá disse...

Nossa!! recordo-me a primeira vez que vi isso....os adolescentes da rua em que eu morava fizeram todos os preparativos, eu criança ainda não entendia...mas a encenação era impressionante, não encontrava nenhum traço do menino tranquilo que era nosso vizinho que lia um testamento que deixava os mais velhos de queixo caído....eu sem entender do que se tratava fiquei triste quando minha mãe no meio da apresentação me pegou pelo braço e me levou pra casa rsss...mais da janela do meu quarto contemplei o Judas "malvado" sendo queimado .
Na realidade o que estava sendo queimado eram os podres de algumas pessoas que minha mãe não queria que minha mente de criança se confundisse, depois ela explicou o quanto algumas pessoas se ofendiam com aquilo e até que ponto era brincadeira ou não.
Seu texto como sempre , brilhante!
beijos
Joelma